-Aqui fica uma bela surpresa vinda do nordeste do Brasil. Quando ouvi esse poema, da autoria de Zé da Luz e interpretado pelo grupo Cordel do Fogo Encantado, lembrei-me da polémica à volta do "desacordo" ortográfico. Tanto se escreveu, sobre como regular a forma como escrevemos o português correcto. A segunda língua mais falada em todo o mundo é de uma riqueza imensa. Uma imensidão que nos transcende, mas que, convêm não esquecer, tudo partiu deste bocadinho de terra nos confins da Europa.
Este património espalhou-se por todos os cantos do planeta e as variantes que dele surgiram, são produto da diversidade cultural que encontraram.Passam agora, 50 anos sobre a morte deste poeta nordestino, que rumou até ao Rio, para lançar dois livros de poemas, "Brasil Caboclo" e "Sertão em Carne e Osso". Um alfaiate de Itabaiana que não respeitou as regras do bom português e produziu esta pérola que agora decidi, dedicar à mulher da minha vida.
A planície é um brasido... e, torturadas, As árvores sangrentas, revoltadas, Gritam a Deus a bênção duma fonte
E quando, manhã alta, o sol posponte A oiro a giesta, a arder, pelas estradas, Esfíngicas, recortam desgrenhadas Os trágicos perfis no horizonte!
Árvores! Corações, almas que choram, Almas iguais à minha, almas que imploram Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede: - Também ando a gritar, morta de sede, Pedindo a Deus a minha gota de água!
Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"
A minha homenagem, a uma grande mulher do Alentejo, após, umas férias, num dos mais bonitos segredos da nossa terra...apenas que se possam ouvir sussurros desta minha convicção!
Nunca voltarei, Nunca voltarei porque nunca se volta. O lugar a que se volta é sempre outro, A gare a que se volta é outra. Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia(...). fragmento
"País purista a prosear bonito, a versejar tão chique e tão pudico, enquanto a lingua portuguesa se vai rindo galhofeira comigo.
País que me pede livros andejantes com o dedo, hirto, a correr as estantes.
País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano.
País onde qualquer palerma diz, a afastar do busílis o nariz: - Não, não é para mim este país! mas quem é a bàquestica sem lavar o sovaco que lhe dá o ar?
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes que há neste país.
País do cibinho mastigado devagarinho.
País amador do rapapè do meter butes e do parlapié, que se espaneja, cobertas as miudas, e as desleixa quando já ventrudas.
O incrível país da minha tia trémulo de bondade e de aletria.
Moroso país da surda cólera de repente que se quer feliz.
Já sabemos, país, que és um homenzinho...
País tunante que diz que passa a vida a meter entre parêntesis a cedilha.
A damisela passeia no país da alcateia, tão exterior a si mesma que não é senão a fome com que este país a come.
País do eufemismo, a morte dia a dia pergunta a mesureiro. Como vai a vida? País dos gigantones que passeiam a importância e o papelão, inaugurando esguichos no engonço do gesto e do chavão.
E ainda há quem os ouça, quem os leia, lhes agradeça a fontanária ideia!
Corre boleada, pelo azul a frota das nuvens do país. País desconfiado a reolhar para cima dum ombro que, com razão duvida.
Este país que viaja a meu lado vai transido mas trasistorizado.
Nhurro país que nunca se desdiz.
Cedilhado o cê, país, não te revejas na cedilha, que a palavra urge.
Este país, enquanto se alivia, manda-nos à mãe, à irmã, à tia, a nós e à tirania, sem perder tempo nem caligrafia.
Nesta mosquitomaquia que é a vida o país, que parece comprida!
A Santa Paciência, país, a tua padroeira, ja perde a paciência à nossa cabeceira.
País pobrete e nada alegrete, baú fechado com um aloquete, que entre dois sudários não contêm senão a triste maça do coração...."
- Este excerto de "Feira Cabisbaixa" de Alexandre O´Neill foi editado em 1965 e se analisarmos bem estes ultimos 50 anos, não mudou muito, todas estas caracteristicas dos nossos portuguesinhos.Confesso que me continua a custar muitíssimo, estes contínuos atrasos no nosso desenvolvimento, a partir da nossa emanicipação em termos de democracia plena, mas este "deixa andar" transformou-se numa imagem de marca. Tal como o grande poeta disse "...País engravatado todo o ano..."