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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Ai Se Sêsse

                            -Aqui fica uma bela surpresa vinda do nordeste do Brasil. Quando ouvi esse poema, da autoria de Zé da Luz e interpretado pelo grupo Cordel do Fogo Encantado, lembrei-me da polémica à volta do "desacordo" ortográfico. Tanto se escreveu, sobre como regular a forma como escrevemos o português correcto. A segunda língua mais falada em todo o mundo é de uma riqueza imensa. Uma imensidão que nos transcende, mas que, convêm não esquecer, tudo partiu deste bocadinho de terra nos confins da Europa.

                             Este património espalhou-se por todos os cantos do planeta e as variantes que dele surgiram, são produto da diversidade cultural que encontraram.Passam agora, 50 anos sobre a morte deste poeta nordestino, que rumou até ao Rio, para lançar dois livros de poemas, "Brasil Caboclo" e "Sertão em Carne e Osso". Um alfaiate de Itabaiana que não respeitou as regras do bom português e produziu esta pérola que agora decidi, dedicar à mulher da minha vida.

               -...Se juntinho nois dois dormisse....

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

sesta no além...Tejo

  Horas mortas... Curvada aos pés do Monte 
                                                          A planície é um brasido... e, torturadas, 
                                           As árvores sangrentas, revoltadas, 
Gritam a Deus a bênção duma fonte                                                                                                                          
E quando, manhã alta, o sol posponte 
                                                                        A oiro a giesta, a arder, pelas estradas, 
                                                                                                  Esfíngicas, recortam desgrenhadas 
                                                                                                                                                       Os trágicos perfis no horizonte!

    
                           
Árvores! Corações, almas que choram, 
                          Almas iguais à minha, almas que imploram 
Em vão remédio para tanta mágoa! 
         








      Árvores! Não choreis! Olhai e vede: 
                                                                   - Também ando a gritar, morta de sede, 
Pedindo a Deus a minha gota de água! 

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"                           



  A minha homenagem, a uma grande mulher do Alentejo, após, umas férias, num dos mais bonitos segredos da nossa terra...apenas que se possam ouvir sussurros desta minha convicção!


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

As origens.












-Gondoriz-(Arcos de Valdevez)

(...)Partir!

Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia(...).
fragmento

Álvaro de Campos

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O País Relativo

"País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a lingua portuguesa se vai
rindo
galhofeira comigo.

País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as
estantes.

País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
- Não, não é para mim este país!
mas quem é a bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

Entrecheiram-se, hostis, os mil
narizes
que há neste país.

País do cibinho mastigado
devagarinho.

País amador do rapapè do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miudas,
e as desleixa quando já ventrudas.

O incrível país da minha tia
trémulo de bondade e de aletria.

Moroso país da surda cólera
de repente que se quer feliz.

Já sabemos, país, que és um
homenzinho...

País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.

A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.

País do eufemismo, a morte dia a dia
pergunta a mesureiro. Como vai a vida?
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.

E ainda há quem os ouça, quem os
leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!

Corre boleada, pelo azul
a frota das nuvens do país.
País desconfiado a reolhar para cima
dum ombro que, com razão duvida.

Este país que viaja a meu lado
vai transido mas trasistorizado.

Nhurro país que nunca se desdiz.

Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.

Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.

Nesta mosquitomaquia
que é a vida
o país,
que parece comprida!

A Santa Paciência, país, a tua
padroeira,
ja perde a paciência à nossa cabeceira.

País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contêm
senão
a triste maça do coração
...."

- Este excerto de "Feira Cabisbaixa" de Alexandre O´Neill foi editado em 1965 e se analisarmos bem estes ultimos 50 anos, não mudou muito, todas estas caracteristicas dos nossos portuguesinhos.Confesso que me continua a custar muitíssimo, estes contínuos atrasos no nosso desenvolvimento, a partir da nossa emanicipação em termos de democracia plena, mas este "deixa andar" transformou-se numa imagem de marca. Tal como o grande poeta disse "...País engravatado todo o ano..."