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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Aquilo que eu não fiz.

              As almas poderão andar, mais calmas, mais resignadas, mais alienadas, mas os motivos, pelos quais já saímos à rua, aonde gritámos por mudança, esses continuam no nosso presente. Esses motivos, teimam, em tornar-se definitivos.
             As canções de "protesto", servem, na maioria das vezes, como alarme para agitar a nossa letargia tradicional. Seria justo, lembrar, algumas delas e reflectirmos sobre o papel que desempenharam, num determinado contexto.
             De certeza que se lembram do expoente máximo deste género de música. Primeiro recorrendo a metáforas e outras figuras de estilo para passar a mensagem, antes da Revolução de Abril e depois escrevendo claro e conciso, com músicas como, "O que faz falta", "Venham mais cinco", "Canção de Embalar", "Vejam bem" e muitas outras, do grande mestre Zeca Afonso. Mas, também me lembro do Zé Mário Branco com o mítico "FMI" ou o "Alerta". O grande Sérgio Godinho com a "Liberdade", com a ..." paz, o pão, habitação, saúde e educação...". Falando na velha guarda, recordo também, "Se tu fores ver o Mar" do Fausto, a "Pedra Filosofal" do Manuel Freire, a "maldade" que o Ary dos Santos fez aos poderes instituídos, quando escreveu para o Fernando Tordo cantar, num mítico Festival da Canção de 75, a "Tourada". Mais recentemente, poderíamos falar dos Deolinda com o seu "Parva que eu sou", dos Peste & Sida, o expoente máximo do punk nacional, nos anos 90, quando nas manifestações estudantis contra a famosa PGA ou a introdução de propinas, a "Repressão Policial" era uma melodia muito entoada, por razões óbvias."Sem eira Nem Beira" dos Xutos e Pontapés, passavam uma mensagem aonde, quereriam  acreditar que esta merda iria mudar...mas não mudou e cá continuamos. Na sequência de todas estas palavras de luta, denuncia e  apelos a não desistirmos, de ACREDITARMOS, ouvi recentemente Tiago Bettencourt. Nesta grande galeria, que aqui apresentei, este nome também irá marcar a nossa realidade, com uma série de questões:
             -Não fui eu que errei, então porquê que tenho de pagar????



sábado, 3 de março de 2012

Canções sem Mordaça.

Ao longo dos tempos a música de contestação têm tido um papel fundamental na sociedade, como forma de chamar a atenção para os problemas que nos afligem, por vezes camuflados. Não discuto aqui a qualidade dessa música, até porque a selecção que aqui apresento é bem diversificada em termos de estilos. Pretendi com estes  vídeos, fazer uma viagem através das ultimas 4 décadas.


                    Zeca, o símbolo máximo dessa dita música, que perdura e representa a tenacidade de um homem que insistiu lutar contra um regime déspota. Sérgio Godinho que pegou na herança do Zeca, a par do José Mário Branco, Fausto, Vitorino, Janita Salomé, etc...e trouxe até aos nossos dias a importância de nunca deixarmos de produzir música de intervenção. O papel dessa música, não deixa de ser importante porque vivemos em democracia, aparentemente muita gente pensa dessa forma, mas hoje revela-se mais importante do que nos tempos da ditadura. Todos os dias, basta lermos nas entrelinhas e escutarmos com atenção, para chegarmos à conclusão que precisamos de estar muito alertas. Muitas dessas letras que hoje ouvimos, são atacadas como demagógicas ou pretensiosas, elas apenas representam a voz da consciência popular, a maioria das vezes. Servem também como um despertador para os poderes instituídos

                  Mais recentemente, temos algumas melodias de contestação interpretadas por grupos que não são identificados por essa matriz, mas que sentiram necessidade de transmitirem esse sinal de alerta, porque a situação piora a olhos vistos. Casos dos Xutos, Deolinda e mais recentemente de A C Boss.

                  Termino com um excerto de uma entrevista dada por Adolfo Luxúria Canibal, o ano passado, quando lhe perguntaram qual o papel da música nas transformações sociais e políticas:


..."A música certa na ocasião apropriada é sempre passível de constituir uma boa banda sonora, e isto em todos os momentos da vida, privados ou colectivos. Pode, enquanto tal e numa qualquer contestação ou transformação social e política, ser factor de união e de referência, veículo catalisador de anseios e aspirações. Na melhor das hipótese, consegue reflectir, ao integrá-lo e exprimi-lo, um mal-estar geral dissimulado ou um desejo comunitário latente e, nesse caso, quanto melhor o integrar e exprimir melhor funciona enquanto bandeira da sua consciencialização e mais apta se torna a federar vontades atomizadas. Na pior das hipóteses, consegue transfigurar-se numa palavra de ordem – se é que ainda podemos falar de música quando isso acontece! Mas, seja como for, é sempre ornamental em relação às transformações sociais. Porque, por si só, a música não gera movimentos colectivos de contestação política nem provoca transformações sociais..."

               
                                       "Tiago Capitão"- Mão Morta
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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Por este Rio Acima.



Aproveito a ocasião do lançamento de um albúm muito esperado de Fausto Bordalo Dias para salientar este vulto enorme da música popular portuguesa. Mais um nome que tenho o prazer de salientar, pela forma como sempre soube pisar o palco da vida. A par de José Mário Branco, do Zeca Afonso, entre outros, Fausto sempre soube passar ao lado do "politicamente correcto", trocar os holofotes pela força da palavra certa. Pacientemente, vai colocando no mercado as suas "pérolas", a um ritmo quase desesperante para os que seguem a sua carreira, de década em década lá vai surgindo mais uma obra. "Em busca das Montanhas Azuis" teve apresentação discreta em meados deste mês, depois do último trabalho, "A ópera mágica do cantor maldito" que data de 2003. Peço a vossa atenção, para mais uma vez a qualidade das letras apresentadas, como ele joga com as palavras,a forma como desperta os nossos sentidos, como "pinta" os quadros da nossa diáspora, nunca se alheando das contradições, das nossas fraquezas, da luta que travámos no interior da nossa identidade como povo.
Fugiu sempre das entrevistas e do protagonismo, preferindo o anonimato como forma de se distanciar das modas, por vezes esta modéstia terá provocado uma imagem de insensibilidade aos que o admiram, mas a esses compensa-os com a sua fugaz aparição em palcos, tornando esses momentos raros em algo de inesquecível. Lembro-me da ultima vez que o vi no Coliseu ao lado de Sérgio Godinho e José Mário Branco, nem sequer dá para descrever aqueles momentos mágicos e o ambiente que rodeou o espectáculo.


Nestes momentos dificeis que atravessamos, é sempre bom recordar aqueles que sempre nos avisaram das tormentas que esta nau muito frágil iria enfrentar. Obrigado Fausto, por seres um deles.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A cantiga é uma arma!

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José Mário Branco é mais um daqueles nomes que incluo neste blogue como uma referência da cultura portuguesa a quem deveríamos todos prestar uma devida homenagem, porque nunca se curvou perante todo este chorrilho de políticos que se pavonearam no poder desde o 25 de Abril. E antes disso foram alguns anitos no exílio em Paris, porque tal como o Zeca também passou das marcas.
Esta apresentação ao vivo em 1982, têm hoje uma actualidade espantosa. Ouçam-na com atenção e reparem que pouca coisa mudou, o FMI anda por aí a rondar e tal como naquela época, é uma instituição financeira internacional que se prepara para nos "ajudar".
"...Saímos de cravo na mão a horas certas..."; "...acabamos todos a estender o braço..."; "...a culpa é dos partidos, são todos a mesma merda, é só paleio, o pessoal não quer é trabalhar..." estas e outras passagens deste testemunho histórico que levanta questões pertinentes sobre o porquê de não andarmos para a frente. Dorminhocos e entretidos com números que lançam cá para fora todos os dias. Num dia o nosso défice não aumentou como esperávamos, noutro dia o numero de desempregados aumentou porque houve uma fuga de informação e a estatística já não é o que era, noutro ainda as agências de rating andam a tramar-nos com especulações infundadas e por fim as exportações vão de evento em popa. E os portuguesinhos continuam impávidos e serenos à espera do FMI!!!
Existe na música portuguesa muita gente que se auto intitula produtora e divulgadora de música de intervenção, mas muita dessa malta o que produz é inócuo, este senhor que hoje aqui refiro costuma dizer desde sempre que a "cantiga é uma arma", e é mesmo no caso dele.