sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A lei do cacetete.

Inspecção-Geral não abriu qualquer processo sobre actuação da PSP na greve geral

A Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) não abriu qualquer processo de averiguação à atuação da PSP na manifestação do dia da greve geral, indicou hoje aquele organismo, numa resposta enviada à agência Lusa.

Na manifestação do dia de greve geral, alguns manifestantes tentaram, durante o protesto que decorreu frente à Assembleia da República, subir as escadarias do edifício, o que motivou a intervenção policial, da qual resultou a detenção de sete pessoas e ferimentos num polícia e num fotojornalista.

Também foi posto a circular um vídeo na Internet que mostra um agente da PSP à civil alegadamente a bater num cidadão estrangeiro, um alemão de 21 anos que está acusado de ofensa à integridade física qualificada e resistência e coação sob funcionário, julgamento que vai decorrer em processo comum.

Na altura, a direcção nacional da PSP abriu um processo interno de averiguações, não existindo ainda conclusões.

Entretanto, a Procuradoria-Geral da República anunciou que vai analisar os documentos e a participação recebida do advogado Garcia Pereira, que pediu para ser aberto um processo criminal à atuação de alegados "agentes provocadores" da PSP na manifestação de 24 de novembro.

O ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, já elogiou várias vezes a atuação policial naquele dia.

A IGAI informou agora que “não foi determinada abertura de processo sobre a matéria”.

Retirei na integra esta noticia do Jornal i. Apenas gostaria de saber, qual a opinião dos que continuam acomodados a esta situação?- Lembro-me da manifestação silenciosa de alguns membros das Forças da Policia de Intervenção, ainda à pouco tempo junto ao Palácio de Belém. O que aconteceu após esse acontecimento?- O governo aprovou um pacote de medidas, no sentido de satisfazer as reivindicações exigidas nessa noite! O pensamento é lógico, senão mantemos estes senhores satisfeitos, quem nos irá defender?


Não importa se criaram excepções às leis vigentes, importa sim, lembrar aos portuguesinhos que a força supera a razão. Este Governo declarou publicamente que irá fazer tudo para cumprir os objectivos e compromissos com a Troika, nem que para isso tenham de suspender a democracia durante os próximos tempos, tal como Manuela Ferreira Leite já tinha sugerido no seu tempo.

Em Espanha com o Movimento de Indignados, existiram provas evidentes de policia infiltrada no seio das manifestações, nomeadamente em Barcelona, Aqui, foi evidente a mesma forma de actuar por parte da PSP, a agressão na Calçada da Estrela foi documentada ao vivo até à exaustão, as supostas tentativas de subir a escadaria de S.Bento foram perpetradas por policias à paisana (fotos documentam esse facto!) e mesmo assim a IGAI não abre processos e o Ministro Mancebo ainda vêm elogiar a forma de actuar dos seus homens, já satisfeitos com os benefícios que reclamavam.

Nós podemos continuar a concordar ou a discordar com a forma como alguns indignados se possam ter excedido na sua forma de manifestar, mas sem dúvida que quando o Primeiro Ministro vêm a publico declarar que estão atentos a manobras estranhas de alterar a ordem pública por parte de grupos radicais, quando a própria policia noticia o controle apertado a movimentos estranhos ao normal funcionamento da democracia, é porque existe uma tentativa de pressionar a opinião pública para estar atenta a algo que venha a acontecer e que justifique a violência com que reprime todos aqueles que apenas desejam manifestar-se ordeiramente. Se calhar, até é capaz de ser melhor não sairmos de casa, dessa forma iríamos cumprir com a vontade destes senhores que se dizem representantes do povo nesta pseudo democracia.Senhor Ministro da Administração Interna, após este episódio, deixe-me que lhe diga, o senhor têm cócó na fralda!




terça-feira, 29 de novembro de 2011

Por este Rio Acima.



Aproveito a ocasião do lançamento de um albúm muito esperado de Fausto Bordalo Dias para salientar este vulto enorme da música popular portuguesa. Mais um nome que tenho o prazer de salientar, pela forma como sempre soube pisar o palco da vida. A par de José Mário Branco, do Zeca Afonso, entre outros, Fausto sempre soube passar ao lado do "politicamente correcto", trocar os holofotes pela força da palavra certa. Pacientemente, vai colocando no mercado as suas "pérolas", a um ritmo quase desesperante para os que seguem a sua carreira, de década em década lá vai surgindo mais uma obra. "Em busca das Montanhas Azuis" teve apresentação discreta em meados deste mês, depois do último trabalho, "A ópera mágica do cantor maldito" que data de 2003. Peço a vossa atenção, para mais uma vez a qualidade das letras apresentadas, como ele joga com as palavras,a forma como desperta os nossos sentidos, como "pinta" os quadros da nossa diáspora, nunca se alheando das contradições, das nossas fraquezas, da luta que travámos no interior da nossa identidade como povo.
Fugiu sempre das entrevistas e do protagonismo, preferindo o anonimato como forma de se distanciar das modas, por vezes esta modéstia terá provocado uma imagem de insensibilidade aos que o admiram, mas a esses compensa-os com a sua fugaz aparição em palcos, tornando esses momentos raros em algo de inesquecível. Lembro-me da ultima vez que o vi no Coliseu ao lado de Sérgio Godinho e José Mário Branco, nem sequer dá para descrever aqueles momentos mágicos e o ambiente que rodeou o espectáculo.


Nestes momentos dificeis que atravessamos, é sempre bom recordar aqueles que sempre nos avisaram das tormentas que esta nau muito frágil iria enfrentar. Obrigado Fausto, por seres um deles.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Radio Televisão Privada.

Neste mundo das comunicações temos de aprender depressa com os sinais que nos chegam, fechar os olhos às tendências, significa extinção de qualquer género. Este novo milénio, traz-nos ventos de mudança, na forma como pretendemos receber a informação, não é novidade o crescente poder da Internet sobre toda a concorrência. No caso da televisão, terá naturalmente de se reinventar , procurar formas de captar a atenção.

Mas em vez de se estudar uma mudança de mentalidades, têm-se falado muito sobre a possível privatização da RTP, nunca estivemos tão perto que isso aconteça como agora, primeiro por causa dos resultados que a empresa apresenta, depois devido à situação económica e por último, graças a este Governo, tal como Midas, em tudo o que tocava transformava em ouro, neste caso tudo o que Passos toca, vira uma empresa privada. É o liberalismo na sua máxima expressão. O pior, neste caso é a forma como tudo isto se vai processando, digno de uma telenovela mexicana da pior qualidade.


O Relvas deitou esta cá para fora. Para final de 2012, aquando da concretização deste projecto, vamos deixar de ter publicidade no canal público. Perda de 30 milhões de receitas com esta decisão, as consequências serão mais gravosas do que a rescisão de 300 trabalhadores prevista e na mira deste senhor está um favorzinho que irá fazer aos canais privados, deliciados com esta perspectiva. Claro que estes favores são depois cobrados, de que forma?- Existem mil e uma maneiras, uma delas será o de contribuir para a manipulação da informação à apresentar por esses canais, entre outras menos visíveis. Se querem um exemplo daquilo que acabo de afirmar, reparem na mudança de atitude que a SIC Noticias teve a partir do momento que os laranjinhas chegaram ao poder. A linha editorial dos seus noticiários começaram a ser tendenciosos, revelando o óbvio e esquecendo sistematicamente de ler nas entrelinhas como era seu timbre. Naturalmente que Balsemão, vestiu novamente a camisola do PSD e puxa por os seus galões na hora de pressionar os seus colaboradores directos. Esta conivência entre o poder e a comunicação social é estudada à muito tempo mas as conclusões são sempre difíceis de aceitar ou provar.


Enquanto estamos entretidos com estes jogos, nos bastidores as negociatas continuam a bom ritmo e os grupos de trabalho ( mais uns cêntimos que se gastam para dar a ganhar a uns tantos amigos) vão apresentando conclusões de bradar aos céus, como a extinção da entidade reguladora!- Por um lado compreendo, porque as entidades reguladoras em Portugal não fazem absolutamente nada, por outro, acredito que sem regulação será mais fácil de controlar a comunicação social. As queixas irão sempre cair em saco roto.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Este não é Seguro!!

José Seguro numa das suas primeiras decisões importantes à frente do maior partido da oposição, encarregou-se de dar razão a muitas vozes do PS, desconfiam da sua enorme insegurança e falta de maturidade política . Ainda estou para perceber a frase que terá dito, quanto ao Orçamento do Estado para 2012, passo a citar ... "optámos por uma abstenção violenta mas construtiva"... (???). Vamos lá por partes, tentar decifrar este jogo de palavras. Vão-se abster, até aqui compreendo, porque estão de acordo com os compromissos assumidos, mas admitem que este Orçamento vai muito além do acordado com a Troika. Paradoxalmente, é violenta esta abstenção, uma tomada de posição sem efeito prático, mas veemente (???). O facto de ser construtiva, parece-me evidente que não existindo qualquer negociação com os partidos do Governo, emerge uma sensação de ineficácia total, muito à imagem do líder.

Eu diria que, José António Seguro na gíria popular seria apelidado de "pãozinho sem sal", do género "agarrem-me senão eu vou-lhe às trombas..." mas depois fica ali à espera que o agarrem!

Com uma oposição assim, o Passos Coelho está descansado, porque nada melhor do que ter a letargia e a falta de credibilidade como características básicas do ADN político do seu adversário principal. Como é evidente, os Socratistas já começam a ter motivos para recomeçar a sorrir. Permanecem na sombra do aparelho partidário, mas vão lançando uma ou outra "farpa" de forma a espicaçar o líder. António Costa, continua pacientemente na Câmara da capital à espera do momento exacto para assumir a liderança. Só nessa altura, num futuro próximo, quando o próprio Governo rapidamente sair do estado de graça em que se encontra, diríamos melhor, da sua zona de conforto, mais o desgaste progressivo (e acelerado!) do José Seguro, aí provavelmente terá a sua oportunidade de avançar. Até lá, estes dois ex-jotinhas como líderes, estão em sintonia, vão-se entendendo às mil maravilhas!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Paz no Egeu.

A localização da Grécia sempre foi trespassada por uma confluência de problemas regionais e continentais ao longo da sua história. Como curiosidade, os turcos que sempre foram vizinhos incómodos, (relembro a ocupação turca do seu território durante parte do séc. XIX , a par de outras questões mais recentes, como o Chipre) neste momento estão dispostos a ajudar os helénicos, com base numa economia que respira saúde, ao contrário das dificuldades emergentes dos gregos.Tomo por exemplo uma das áreas mais importantes para os cofres de Atenas, que é sem duvida o turismo. Desde 2008 que as receitas geradas, nesta industria, são proporcionalmente cada vez mais baixas em função da crescente instabilidade social que se faz sentir nas ruas, no entanto, da Turquia chegam boas notícias, porque todos os indicadores apontam para uma afluência cada vez maior de pessoas vindas desse País do outro lado do Egeu, que acabam por deixar vincada a sua prosperidade nas receitas que ali deixam. Existe uma mudança visível de atitude, apesar de que na minha opinião, este fenómeno deve-se essencialmente a uma pequena parte de uma operação de charme, muito mais vasta, para que este País passe a integrar a Comunidade Europeia a curto prazo.

Esta relação entre cristãos ortodoxos e islâmicos nunca foi famosa, basta lembrar a questão do Chipre, agora dominada por um parlamento constituído por gregos, mas aonde a comunidade turca da ilha nunca aceitou esse facto e proclamou mesmo a Republica turca do Chipre do Norte desde 1974, uma situação que não é reconhecida pela comunidade internacional. Só a vontade de adesão à Europa atenua esta tensão permanente.

Com cerca de 33 acordos assinados em 2008 entre as autoridades dos dois países foi completo a maior parte do quadro jurídico das relações em vigor. Os contactos entre eles, começam a ser construídos numa base do respeito e compreensão e antevejo que esta seja uma porta de esperança para o povo helénico. Provávelmente terão que se virar a Oriente, algo que sempre evitaram por razões óbvias no passado, mas agora em função da sua frágil situação e da economia vistosa e sedutora do outro lado do Egeu, acho que será inevitável. Enquanto isso a Turquia continua a lançar o seu perfume pela Europa.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Margaret Bourke-White

"Um soldado com uma banhista" - 1945


"Mahatma Gandhi" 1946


"O topo do Edifício Chrysler " 1931


" Fila de vítimas das inundações" 1937


"Sulcos" 1954

Continuando a apresentar neste blog, os mestres da fotografia, hoje chega a vez de Margaret Bourke-White. Nasceu em Nova Iorque em 1904, concluiu a licenciatura em arte em 1927. Tal como agora, o mundo inteiro estava de olhos postos na Bolsa, a depressão dava os seus primeiros sinais e com a sua câmara, descobriu as greves operárias, as lutas sindicais e a repressão por parte da polícia. As desigualdades presenciadas na rua, transformaram esta mulher que já lutava pelos ideais feministas, numa activista de esquerda. A Revolução Bolchevique na URSS foi um apelo a que não se negou e foi a primeira repórter acreditada naquele país. Um livro seu realizado na URSS, com o nome "Eyes on Russia", integrou anos mais tarde a "lista negra" da repressão macarthista.

Em 1939, o nazismo avançou sobre a Europa e surpreendeu-a em Moscovo que captou com uma rara sensibilidade as imagens dos bombardeamentos da cidade e conseguiu nessa altura um dos raros sorrisos de Estaline. Em 1942 torna-se fotógrafa oficial da Força Aérea dos Estados Unidos e continuou a trabalhar como correspondente de guerra. Nas capas da "Life" tornaram-se imagem de marca os campos de concentração, pelotões de fuzilamento e valas comuns. Em 1946, numa reportagem que faz durante o processo de independência da Índia, consegue a autorização de apenas tirar três fotografias a Gandhi, durante um voto de silêncio junto a uma roca. Esse mesmo artefacto, representava no ponto de vista do líder, que a população não precisava da maquinaria britânica para as suas necessidades, bastava-lhes uma tradicional roca para fazer a sua roupa e assim ser feliz. À sua terceira tentativa, na qual aquele utensílio ocupava o plano primeiro e a luz projectava-se por trás das costas de Gandhi, valeu-lhe
o epíteto da sua simpatia pelo caminho da paz e a sua intransigência perante os povos opressores. Um disparo que deu várias voltas ao mundo.

Durante a Guerra Fria foi "perseguida" pelo FBI pelas supostas "actividades antiamericanas" que desenvolvera entre 1930 e 1950, mas a revista "Life" nunca lhe retirou a sua confiança e dessa forma ainda cobriu a Guerra da Coreia. A doença de Parkinson retirou-lhe a firmeza nos disparos e acabou por se retirar. Em 1971 acabaria por falecer dessa mesma doença, no seu lar em Connecticut. O seu sentido de oportunidade e a sua coragem fizeram desta mulher uma pioneira em muitas das situações em que se envolveu, até pelo simples facto de enfrentar o machismo que dominava o mundo da fotografia.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um talhão de esperança.


Os mais antigos costumavam comentar comigo que os pequenos quintais por trás dos prédios em plena capital, representavam aquele hábito de muita gente que migrou de zonas rurais e trouxeram a sua intrínseca ligação à terra. Claro que num período de crescimento aparente do País nos anos 80 e 90, essa prática foi deixando de fazer sentido, os mais novos não se interessavam e os mais velhos iam abandonando essa prática, porque as grandes superfícies proliferavam e os produtos cada vez mais acessíveis à sua bolsa, não incentivavam o cultivo. Se falarmos em termos de abandono, relembro as políticas desastrosas do Sr Silva nesta área. Os subsídios comunitários choviam e foi incentivado o virar as costas aos campos. Virar as costas às pescas, etc...Por isso acho engraçado quando vejo o mesmo Sr.Silva passados uns anos vir incentivar os jovens a voltarem à agricultura!! -Eu acho que se deveria exigir um mínimo de decência a estes políticos que acham ter o poder de fazer esquecer todas as estrumeiras que praticaram no passado (ainda por cima recente!), porque depois destas afirmações até as vacas açorianas se riem!!!

-Chegados a este momento da nossa longa história, seria desnecessário explicar o porquê de ressurgir este interesse pela terra. Não me abstenho de pensar que numa primeira fase à uns anos atrás, estávamos muito numa onda de Al Gore, o verde predominava, sentíamos necessidade de preservar, as campanhas de sensibilização não cessavam e o planeta como um todo era preocupação evidente. Mas agora não, penso que é um outro instinto que nos guia, somos levados a pensar que falhando tudo à nossa volta, inclinamo-nos para a pura sobrevivência que nos leva outra vez à terra. Tenho acompanhado as iniciativas que têm surgido, a maior parte das vezes de índole municipal, mas não só como o exemplo que ainda a semana passada li no jornal "Expresso". Em Montemor-o-Novo conjugaram-se dois interesses numa "simbiose" que eu achei curiosa, por um lado os proprietários de muitos hectares abandonados e por outro, pessoas interessadas em trabalhar essas terras, mas que não tinham terrenos para o fazer. Criou-se uma base de dados e as pessoas interessadas vão-se organizando, vão-se comunicando, respeitando é claro, regras bem definidas para ambos. Na zona de Lisboa e arredores cada vez que aparece uns talhões disponíveis, aparece logo muitas candidaturas e a verdadeira crise ainda nem se começou a sentir, segundo o que dizem os entendidos. Penso que na zona do Parque Botânico de Monteiro Mor, junto ao Museu Nacional do Traje estão disponíveis cerca de 2500 m2, uma zona que era tratada pelos próprios funcionários do Museu por pura carolice, mas que por diversas razões foi sendo abandonada, pelo que sei já existem candidatos suficientes para criar ali mais uma horta comunitária super lotada.


Este fenómeno tende a espalhar-se e seria interessante saber até que ponto não precisemos todos de começar a pensar em soluções que não passem necessariamente por um modo de vida que se encontra prestes a esgotar os seus recursos e que nas ultimas décadas definha-se a olhos vistos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

ACORDEM!!!! ....Porra!


"O que realmente levanta uma indignação contra o sofrimento não é sofrimento intrinsecamente, mas a falta de sentido do sofrimento."

Frederich Nietzsche

Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.

Che Guevara

O sonho é legítimo... Mas o sono pesado de nossa indignação atrai o caos. Precisamos acordar para o fato de que as mudanças sociais começam dentro de nós.

Demétrio Sena

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Merotocracia



Uma das grandes questões que actualmente se colocam aos movimentos de indignados, é a capacidade destes grupos de dar respostas capazes aos problemas que levantam?
A Democracia têm tido as "costas largas", qualquer ditador disfarçado hoje em dia poderá assumir que no seu caso em particular este mesmo regime é respeitado integralmente e o povo de uma forma ou de outra teve oportunidade de eleger os seus representantes. Já de certeza ouviram falar, José Eduardo dos Santos, Hugo Chávez ou mesmo Hu Jintão e parece-me incrível como estes senhores conseguem conjugar a palavra demo+kratos com a realidade dos seus países. Mas estes são exemplos maiores da hipocrisia política do século XXI, no entanto se depois tivermos com um pouco de atenção, vamos encontrando outros atropelos menos consistentes mas relevantes na nossa própria comunidade europeia. Todos os dias, basta abrirmos os olhos e estar atentos a sinais muito preocupantes vindos daqueles que supostamente elegemos para serem nossos representantes e defenderem os nossos interesses comuns.

Seria previsível que sendo políticos, não teriam a mesma fama se fossem cumprir tudo aquilo que prometeram nos seus programas eleitorais, a sua classe vive momentos bem conturbados de credibilização perante os eleitores, mas a crise está aí e precisamos urgentemente de soluções mais convincentes. Aonde vamos encontrá-las?

Fora dos partidos políticos seria talvez uma ideia muito perigosa, dizem alguns, porque poderíamos estar aqui a presenciar a um déjà vu da situação caótica que a Europa viveu antes da Segunda Grande Guerra com o aparecimento de grupos totalmente inovadores e depois deu naquilo que deu, portanto estamos aprisionados a um sistema que não se renova mas vai-se perpetuando até um dia...

Portanto, voltando à questão do princípio, eu admito que a realidade é propiciadora de alguns movimentos mais radicais com algumas ideias inócuas e limitadas por alguma utopia na sua realização, mas quando se diz que não existem respostas, às perguntas levantadas é totalmente falso. Os manifestos estão expostos para quem queira dar-se ao trabalho de ir consultá-los, mas acredito que a muitos portuguesinhos lhes seja mais fácil de afirmar que estes movimentos são vazios de conteúdo e apenas pretendem desestabilizar!!!
Muitas das ideias apresentadas fazem todo o sentido para quem como eu não obtenho qualquer vantagem na forma como somos governados, agora acredito que para certas pessoas seja impensável estar a perder tempo com este tipo de reivindicações.

A 12 de Março referi aqui neste blog que aconteceu algo de muito diferente neste País, espero que este movimento tenha aqui uma oportunidade de provar que nada daquilo foi efémero e que os "velhos do Restelo" são difíceis de mudar de opinião mas um dia terão que assumir que este inicio de século merece uma Merotocracia em vez da velhinha Democracia.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A Terceira Visão.


Dalai Lama decidiu que irá reencarnar naquilo que lhe vier à tola e eu pergunto já que é assim, quem irá decidir o destino a dar na reencarnação da nossa economia quando chegarmos à bancarrota?

Sou um fervoroso seguidor das ideias deste grande guia espiritual e só tenho pena que os nossos sucessivos governos não o tenham recebido condignamente, aquando das suas curtas e esporádicas visitas a Portugal (isto porque estamos sempre a prestar contas àquele grande mercado emergente do Oriente, enfim chinezices!), mas agora seria interessante ele apreciar que não foram infrutíferas as suas viagens. Apreendemos depressa alguma da filosofia zen que ele difunde por esse mundo fora, se nunca se aperceberam deste facto, basta relembrar uma série de medidas governamentais que foram tomadas nestes ultimos 100 dias, sem qualquer reacção da nossa parte. Passo a enunciá-las:

* Aumentaram os transportes de uma forma brutal e nós o que fizemos. Serenamente NADA!
*Anunciaram cortes na saúde, resolução de diminuir os transplantes realizados, ainda estenderam as taxas moderadoras a grupos da população que usualmente tinham a sua isenção por razões diversas e continuam a fechar centros de saúde sem nenhum critério racional. O povo saiu à rua?- Não senhor, preferiram sentar-se na posição de lótus e esperar por dias melhores.
*Mexeram nas leis laborais de forma a que o patronato pagasse menos nas situações de despedimento sem justa causa, pretendem retirar privilégios a todas as pessoas que trabalham feriados e folgas. Ausência de qualquer medida para proteger os trabalhadores a recibo verde. E apesar de tudo isto, os portuguesinhos entenderam mais uma vez fechar os olhos e deram as suas mãos para....uma conjugação de energias.
* Vão-nos retirar 50% do subsídio de Natal, mas talvez por causa dessa época festiva, decidimos enaltecer o nosso sentido de solidariedade e compreendemos.
*Quando alguém deu a ideia de taxarmos os mais ricos, este Governo ainda sorriu de soslaio e afirmou, ..."nem pensar nisso e depois as fortunas fogem todas para o outro lado do Atlântico???". De devaneio em devaneio fomos sempre cultivando esta nossa veia budista e mantivemo-nos em concentração total.
* Aumento do IVA de 6 para 23% na electricidade e no gás natural. Continuamos mesmo assim a pensar que numa próxima reencarnação teremos poucas probabilidades de voltar a este lugar e sermos governados por estes pseudo políticos.

Respiramos profundamente, libertamos estas energias negativas. Estamos agora calmos. Relaxados e felizes!

Poderia enunciar mais medidas, mas em cem dias já podemos afirmar que lá longe no Tibete o Grande Dalai Lama irá ter orgulho neste povo que ele um dia visitou, escondido, pela porta de trás, mas que deixou um rastro de felicidade e amor puro!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Monte Santo.


Terra

" Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os Rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio."

Poesia de Fernando Namora




..."Cansado de estar de cócoras em frente do bicho. A moleza do corpo não lhe permitia tal posição.
O sol viera adormecer os nervos, trazendo quebranto e desleixo aos músculos, como se um afago morno tivesse furado a cortina das nuvens para lhe vestir a carne friorenta com uma indolência entorpecente. Por isso os gestos do Pencas se espreguiçavam; por isso os seus membros eram vermes deliciados e o cérebro se esvaziava numa cálida zona de volúpia, todo ele sem forças para se interessar pela tortura da cobra. Esta, resignada ali na sua frente, fazia-lhe apetecer os dias rubros de soalheira, as vinhas, os baldios, os lagartos torrando-se no cimo das fragas, vida quente e livre, sem aquelas necessidades miseráveis de comida, botas, tabaco e vinho"...


Depois de umas belas férias, lembrei-me de evocar Fernando Namora e o livro que escreveu em 1951 "A noite e a Madrugada", dado que ele o escreveu na bela aldeia de Monsanto, aonde eu passei um dia inesquecível. Esta aldeia é indescritível e só quem se senta naqueles penedos compreende a suprema leveza do ser, o cheiro que emana daquelas pedras e sobretudo a paz que nos invade. O silêncio perturbou-me nesta bela tarde de Setembro, será difícil imaginar o que será, passarmos uma noite de inverno rigoroso, refugiados num destes belos abrigos de pedra que nos rodeiam.

Fernando Namora escreveu também neste lugar "Retalhos da Vida de um Médico", que depois até foi adaptado ao cinema no ano em que nasci, 1962, por Jorge Brum do Canto. Garanto-vos que quem visita o local poderá perceber facilmente a razão da eleição deste lugar ermo e calmo para inspirar a escrita e desenvolver a sua carreira de médico, já que a exerceu num consultório que está bem referenciado numa rua com o seu nome.

Muitas vezes na nossa vida encontramos esquinas, aonde por momentos desejaríamos perpetuar a nossa estadia e desfrutar as vistas até à exaustão. Momentos perfeitos.




quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Um buraco autónomo.


Salvo erro este episódio da Madeira já não encaixa nesta história do endividamento do País, nem na supervisão atenta da Troika ou nas promessas deste Governo, numa nova forma de encarar as dificuldades que se avizinham. Desta ilha já estamos habituados a que nos cheguem nem bons ventos, nem bons orçamentos. Ao longo dos últimos anos tenho-me habituado a que muita gente quando chega ao Continente revelar-me as imensas infra-estruturas que foram criadas para conforto dos locais e das pessoas que os visitam. Lembro-me de que no final dos anos 80 (depois disso nunca mais lá fui) demorava 2 horas para chegar do aeroporto até ao Funchal, ou para ir do Funchal a Porto Moniz era quase meio-dia perdido naquelas estradas sinuosas. Tal como Alberto João Jardim afirmou à poucos dias ou se gasta dinheiro ou não se criam condições para as pessoas viverem com mais dignidade, Salazar tinha uma visão diferente, por isso o estado lastimável da ilha a seguir à Revolução dos Cravos. Eu estou de acordo que a Madeira só poderia ser um pólo de atracção turística, como é, se criasse as condições que hoje detém. Mas por outro lado também sei que este senhor aproveitou-se do resultado de todas estas obras para tornar reféns, toda aquela população de uma forma absurda e ditatorial. Eu quero, eu posso e eu mando, a forma tentacular como domina todos os órgãos do Estado ali representados é escandaloso e faz com que os apoios por si conseguidos só chegam às mãos daqueles que à partida o possam apoiar.

Apesar deste escarcéu com a descoberta de um buraco nas contas do Governo regional, nada impede que ele em Outubro próximo possa ser eleito mais uma vez com maioria absoluta, com apoio do PSD de Lisboa ou sem ele. A alienação dos madeirenses é algo que se explica com muita facilidade, baseando-me naquela máxima de que em terra de cegos quem tem um olho é rei!

Penso que a limitação de mandatos acordada há pouco tempo para os autarcas, deveria ser estendida a estes cargos de Presidentes das Regiões Autónomas, para não criarmos mais situações deste género, aonde o abuso de poder é a característica essencial e a génese deste problema. Embora eu saiba que existem muitos senhores que saltam da cadeira do poder por uns tempos, depois voltam ainda com mais força. E na sua ausência colocam lá “fantoches” para manterem o panorama inalterado, como aconteceu com Isaltino na Câmara de Oeiras. Acredito que existem muitos no nosso País como o Alberto João, mas dão menos nas vistas e como pela boca morre o peixe, este atum veterano já escapa há muito às redes que lhe lançam.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Não temos emenda!




Ninguém explica melhor em Portugal a atracção que os Portuguesinhos têm em aproximarem-se do "abismo", como este sociólogo de grande reputação. Este pedacinho de uma entrevista que António Barreto deu à SIC Notícias, logo a seguir ao seu magnifíco discurso do ultimo Dia de Portugal, reflecte bem a forma sintética e descomplexada como este cientista social aborda as questões intrinsecamente mais complicadas para os outros. Os retratos que faz da nossa sociedade são por certo reflexo de atitudes, que de alguma forma são repetitivas por todos nós em situações idênticas ao longo dos tempos. Achei curioso, que ele não aponta numa direcção determinada quanto ás causas políticas da crise em que estamos embrenhados, prefere apontar o dedo à falta de união mesmo em tempos muito difíceis. Estou perfeitamente de acordo que o momento exigia uma convergência alargada sob a égide do Presidente da República, definirmos soluções para ultrapassar este período confuso, aonde Merkel e Sarkozi definem quase tudo sem deixar espaço à autonomia de cada país.

Tal como ele afirma, Portugal não têm emenda!- Continuamos inexoravelmente a caminhar para uma situação pior amanhã do que hoje e não reagimos; escutamos os ecos de bancarrota na Grécia e passamos ao lado porque os tais políticos continuam a afirmar que a nossa economia não têm nem de perto, nem de longe uma margem de manobra similar à deles!!

As desigualdades sociais são cada vez mais objecto de um estudo profundo e sem cair em demagogias despropositadas, António Barreto declara que somos das nações europeias a que se faz notar mais esse fenómeno, que não é de hoje, é resultado de muita legislação e processos de vária natureza que nos conduziram a essa realidade. Sabendo que as pessoas hoje em dia quando saem de casa já não têm tanta certeza sobre a sua estabilidade a nível profissional, pressinto que essa insegurança possa provocar uma outra apetência para o inconformismo ou mesmo sentimento de revolta. Essas mesmas desigualdades poderão aqui fermentar no futuro uma realidade disforme àquilo a que estamos habituados. António Barreto refere também que, como povo não costumamos ferver em pouca água, mas eu pergunto e se estamos à beira do "abismo" ou mesmo se já entrámos lá dentro, como é que iremos reagir?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Serviço Nacional de quê?


Lanço aqui um desafio que muitas pessoas irão compreender, dadas as circunstâncias. Que tal fazermos uma petição no facebook, para tornarmos possível fazer um transplante urgente do cérebro deste senhor ministro da Saúde?- Extraíamos a sua vertente 100% economicista e em seu lugar colocávamos lá um espírito mais humanista, que no mínimo percebesse deste assunto, alguém com experiência comprovada nesta área sensível.
Quando ouvi as suas declarações sobre a necessidade de reduzir os transplantes por razões económicas, penso que não existam palavras para descrever a minha perplexidade!?- Já desconfiava de que medidas como esta iriam surgir, dado que estamos perante um senhor formado em Organização e Gestão de Empresas, Director Geral do BCP entre 1993 e 98 e que pertenceu à Direcção Geral de Impostos em 2004, quando a Manuela Ferreira Leite era Ministra das Finanças. Portanto com um perfil destes, este senhor percebe tanto de Saúde como a Ministra Cristas percebe de Agricultura. Que existem áreas na Saúde que importa levarem cortes orçamentais urgentes, acredito que sim. Mas nos transplantes????
Mas o PSD cada vez que chega ao poder, já nos habituou a estas fugas à realidade. Lembro-me do caso dos hemofílicos com a Leonor Beleza, uma das páginas mais negras da justiça portuguesa, por falta de coragem no momento da decisão. Lembro-me também, daquela precipitada manobra do Ministro Luís Filipe Pereira, no Governo de Durão Barroso que de repente quis acabar com as listas de espera para intervenções cirúrgicas, cometeram-se aí "atrocidades" por falta de ponderação e sentido de responsabilidade.

O cerco aperta em redor daqueles que não tendo possibilidade de recorrer ao privado, têm de "engolir" estas propostas alarves que vão sendo cometidas por senhores que nunca tiveram contacto com a realidade do Serviço Nacional de Saúde e que impunemente vão decretando tudo o que lhes passa pela cabeça. O nosso Primeiro(s) Passos vai continuar a afirmar que o caminho até 2013 vai ser muito difícil, mas eu pergunto mais uma vez. Difícil para quem?- Para os mesmos de certeza, porque o Grupo Mello continua as suas negociatas neste sector da forma que mais lhes convêm. Os 10 Hospitais que o Governo pretende construir no âmbito das chamadas Parcerias Público Privadas abrangerão mais de 1/4 da população portuguesa dentro de 4 anos e nessa altura o nosso SNS não será mais do que uma sigla sem sentido nenhum.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Senhor Professor.


"Não te coíbas de repetir o que já disseste, porque és pequeno e só assim talvez será possível que te ouçam.". Comecei por citar Vergílio Ferreira por variadíssimas razões, mas a primeira, porque faz agora 20 anos que eu li uma entrevista sua que deu à revista K , conduzida por Pedro Rolo Duarte (um ex-aluno seu do Liceu Camões), ainda hoje guardo esse exemplar comigo. Uma conversa que me ficou na memória e que de vez em quando a vou reler. Passados 5 anos da publicação desta entrevista, faleceu no seu apartamento rodeado de livros em Alvalade e o seu corpo foi enterrado em Melo, a sua terra natal aonde nascera em 1916. Descansa junto à sua Serra da Estrela. Sinceramente o primeiro contacto que eu tive com a sua vasta obra foi através do cinema, no filme adaptado do livro"Manhã Submersa" de Lauro António (1980). Película em que ele próprio protagoniza o papel de Reitor e aonde também contracena com Eunice Muños, Jacinto Ramos e Canto e Castro, entre outros. Quando se fala em grandes escritores portugueses, geralmente nunca ouvimos falar do seu nome, talvez porque tal como ele refere neste depoimento, sempre foi um mal amado. Antes do 25de Abril não era compreendido por o regime vigente mas os comunistas também nunca o consideraram como um dos seus. Após a Revolução continuou a não ser compreendido e só depois da queda do Muro de Berlim, ele provou que tinha razão em relação a esse "bunker", palavra que utilizava para caracterizar o comunismo, dado que lhe parecia "uma estrutura de cimento armado impenetrável. Mas a História lá se meteu numa fenda, como as plantas se metem por entre as pedras e fazem estalar os passeios. e o bunker estalou."

Este beirão de gema era um humanista puro, relatava nos seus livros um personagem sempre perante a solidão das suas ideias que são intrínsecas e muitas vezes intransmissíveis e o mundo lá fora era invariavelmente uma absurda estupidez. Quando damos por nós a reflectir um pouco mais sobre o mundo que hoje nos rodeia, quantas vezes não ficamos com essa mesma sensação. A ultima vez que isso me aconteceu, foi quando acabei de presenciar à queda inevitável de Kadhafi na Líbia, com a entrada dos rebeldes em Tripoli e com a ajuda fundamental da NATO. Mas depois vejo as Nações Unidas encolherem-se e ficarem impassíveis perante a chacina de cidadãos inocentes na Síria, ás mãos de um outro ditador!- Diferença fundamental nesta hipocrisia, uns têm petróleo os outros não. Vamos divulgar ao Mundo meias verdades e deixemos que mais Vergílios Ferreiras ponham a mão na ferida e divulguem com serena melancolia que estes dias não são de festa pá!